2026/06/16
Plano Municipal de Ação Climática admite cenário de perda entre 22% e 28% da população de Vale de Cambra nos próximos 24 anos.
Vale de Cambra poderá perder entre 22% e 28% da população até 2050, segundo projeções referidas durante a discussão do Plano Municipal de Ação Climática, na Assembleia Municipal. O alerta foi deixado pelo Grupo Municipal do PSD, que considerou o dado um dos indicadores mais preocupantes do documento.
Durante o debate, a deputada Ana Rita Martins começou por reconhecer que o Plano Municipal de Ação Climática é um instrumento importante para preparar o concelho para os desafios ambientais das próximas décadas, como incêndios rurais, cheias, ondas de calor e períodos de seca. No entanto, a eleita social-democrata apontou fragilidades ao documento, nomeadamente a ausência de metas numéricas absolutas, compromissos operacionais diretos por medida e responsáveis identificados para a execução das ações previstas.
O ponto mais sensível da intervenção foi a evolução demográfica. Segundo Ana Rita Martins, o próprio Plano Municipal de Ação Climática admite que Vale de Cambra poderá perder entre 22% e 28% da sua população até 2050.
No cenário mais favorável, a perda estimada será de 4.813 residentes. No cenário mais desfavorável, o concelho poderá perder 5.946 habitantes. A deputada considerou que este indicador deve merecer atenção política, por estar diretamente ligado ao futuro social, económico e territorial de Vale de Cambra.
A preocupação demográfica já tinha surgido noutro momento da sessão, quando a deputada Maria José Guiar, do Chega, alertou para o envelhecimento da população e para a dificuldade em fixar jovens e famílias no concelho.
A eleita citou o Plano de Desenvolvimento Social de Vale de Cambra 2023-2027, referindo que mais de 28% da população do concelho tem mais de 65 anos, o que corresponde a quase seis mil valecambrenses. Acrescentou ainda que, em 2021, nasceram apenas 122 crianças em todo o concelho. Para Maria José Guiar, estes números mostram que Vale de Cambra está a envelhecer e tem dificuldade em manter população ativa.
A questão da habitação foi ligada diretamente ao problema demográfico. Maria José Guiar defendeu que não basta pedir aos jovens para ficarem no concelho, sendo necessário criar condições concretas para que possam construir vida em Vale de Cambra.
A deputada apontou o aumento dos preços das casas e das rendas como uma das maiores dificuldades enfrentadas por jovens casais e trabalhadores. Segundo a intervenção, há jovens que trabalham e têm família em Vale de Cambra, mas não encontram habitação a preços compatíveis com os seus rendimentos. Também referiu empresas que dizem ter dificuldade em atrair e fixar trabalhadores qualificados por falta de soluções habitacionais adequadas.
Apesar das críticas, o Plano Municipal de Ação Climática acabou por ser aprovado pela Assembleia Municipal. O documento tinha sido apresentado pelo presidente da Câmara como mais do que uma obrigação legal, sendo também uma preocupação do município com as alterações climáticas e com o futuro dos valecambrenses.
O debate, contudo, acabou por ultrapassar a dimensão ambiental e colocou em evidência uma questão estrutural para o concelho: a necessidade de responder simultaneamente às alterações climáticas, ao envelhecimento, à perda de população e à dificuldade de fixar jovens.
A projeção de perda de até 28% da população até 2050 transforma o tema demográfico num dos maiores desafios políticos de Vale de Cambra para as próximas décadas