2026/11/04
Renata Cambra, professora de 35 anos e neta do antigo presidente da Câmara Municipal de São João da Madeira, Manuel Cambra, entretanto já falecido, está no centro da atualidade nacional devido ao protesto pela habitação no Rossio, em Lisboa.
Renata Cambra, de 35 anos, tornou-se uma das figuras centrais do protesto pela habitação no Rossio, em Lisboa. A professora é neta de Manuel Cambra, que governou São João da Madeira pelo CDS-PP, numa história familiar marcada por percursos políticos ideologicamente opostos.
A luta pelo direito à habitação colocou Renata Cambra, professora de 35 anos, natural de São João da Madeira, no centro da atualidade nacional. A ativista tornou-se um dos principais rostos do protesto instalado no Rossio, em Lisboa, depois de conseguir uma decisão judicial favorável à permanência de uma tenda na praça. Mas há uma particularidade na sua história: é neta de Manuel Cambra, antigo presidente da Câmara Municipal de São João da Madeira, eleito pelo CDS-PP.
O contraste político entre as duas gerações é evidente. Manuel Cambra governou o município sanjoanense entre 1984 e 2001, ligado à direita democrata-cristã. A neta seguiu um percurso ideológico diferente, com passagens pelo Bloco de Esquerda e pelo Movimento Alternativa Socialista (MAS), estando atualmente ligada ao movimento Trabalhadores Unidos, de inspiração trotskista.
A intervenção política de Renata Cambra começou durante os tempos de estudante na Universidade de Coimbra, onde participou em movimentos contra as propinas, os cortes nas bolsas de estudo e as políticas de austeridade. Em 2011, liderou a candidatura Indigna-te à direção-geral da Associação Académica de Coimbra.
Depois de uma passagem pela Alemanha, onde exerceu a profissão de professora, regressou a Portugal e intensificou a participação política. Nas legislativas de 2022, foi candidata pelo MAS, partido que obteve 6.157 votos a nível nacional, correspondentes a 0,11%.
A notoriedade nacional de Renata Cambra cresceu com a participação na Acampada pela Habitação, uma iniciativa de protesto que pretende chamar a atenção para as dificuldades de acesso à habitação em Portugal.
A ativista recorreu à justiça para contestar as limitações impostas à permanência dos manifestantes no Rossio durante a madrugada. O Tribunal Administrativo de Lisboa deu-lhe razão, permitindo que mantivesse uma tenda na praça até à votação final do Orçamento do Estado para 2027, prevista para 24 de novembro, mediante o cumprimento de determinadas condições.
A decisão judicial, aplicável ao caso concreto, não representa uma autorização generalizada para acampar em espaços públicos. Entretanto, o Ministério Público apresentou recurso para o Tribunal Constitucional, prolongando a discussão jurídica em torno do protesto.
A manifestação também suscitou preocupações entre os comerciantes da Baixa lisboeta, particularmente devido à preparação do Mercado de Natal do Rossio. A utilização da praça para o protesto e para as atividades comerciais colocou em discussão a conciliação entre o direito à manifestação e o funcionamento da atividade económica.
Para São João da Madeira, o protagonismo de Renata Cambra apresenta uma curiosidade histórica. O avô perdeu a presidência da Câmara nas eleições autárquicas de dezembro de 2001 para Castro Almeida, atualmente ministro no Governo de Luís Montenegro.
Mais de duas décadas depois, o apelido Cambra regressa à atualidade política nacional, desta vez através de uma geração com convicções ideológicas distintas. Se o avô construiu o seu percurso na governação autárquica pelo CDS-PP, a neta tornou-se uma figura pública da contestação social, tendo agora como principal bandeira o direito à habitação.