2026/09/23
Santa Maria da Feira Vale de Cambra
Da memória de um concerto em Vale de Cambra ao espetáculo que ficou por cumprir em Santa Maria da Feira, Jorge Palma deixou uma ligação especial às Terras de Santa Maria.
A morte de Jorge Palma, aos 76 anos, deixa mais pobre a música portuguesa e encerra um percurso de mais de cinco décadas feito de canções que atravessaram gerações. O músico e compositor morreu na noite de 21 de setembro, vítima de uma paragem cardiorrespiratória, segundo a informação divulgada pela família.
Nascido em Lisboa, em 1950, Jorge Palma começou muito cedo a estudar piano e construiu uma obra singular, marcada pela palavra, pelo piano, pelo rock e por uma escrita profundamente pessoal. “Frágil”, “Deixa-me Rir”, “Bairro do Amor”, “Estrela do Mar”, “Dá-me Lume” ou “Encosta-te a Mim” são apenas alguns dos temas que passaram para a memória coletiva portuguesa. Ao longo da carreira integrou ainda projetos como Palma’s Gang, Rio Grande e Cabeças no Ar. O último álbum de originais, “Vida”, foi lançado em 2023.
Nas Terras de Santa Maria, a notícia da sua morte ganha um significado particular. Jorge Palma não era apenas um nome maior da música nacional que chegava através dos discos, da rádio ou da televisão: era também um artista cuja presença recente ficou ligada aos palcos da região.
Em Vale de Cambra, o músico atuou a 16 de maio de 2025, no Centro de Artes e Espetáculos, num momento especialmente simbólico por ter acontecido pouco mais de um mês depois da abertura daquele equipamento cultural. O espetáculo apresentado foi “3 Palmas na Mão”, ao lado dos filhos Vicente e Francisco Palma. A proposta nascia de uma canção do álbum “Vida” e transformava a relação familiar num concerto partilhado entre pai e filhos.
A passagem por Vale de Cambra deixou também um testemunho manuscrito, agora revestido de um significado diferente. No livro do CAE, Jorge Palma escreveu sobre a “receção calorosa” e os “sorrisos bonitos”, enquanto Francisco Palma deixou registada a memória de uma “terra bonita, comida boa, gente simpática”, agradecendo a possibilidade de fazer música junto de pessoas de quem gostava. No final da página, Jorge Palma acrescentou: “Subscrevo com entusiasmo! Grande abraço do Jorge Palma.”
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A homenagem publicada pelo CAE recuperou precisamente essa proximidade: “Enquanto houver estrada para andar, a tua música continuará a fazer parte da nossa história.” A frase resume a ligação que ficou daquela noite e de uma presença que, embora breve, entrou também na memória cultural de Vale de Cambra.
Havia ainda um novo encontro marcado com a região. No próximo 10 de outubro, Jorge Palma deveria subir ao palco do Cineteatro António Lamoso, em Santa Maria da Feira, novamente acompanhado pelos filhos Vicente e Francisco, para apresentar “3 Palmas na Mão”. A programação municipal mantinha o concerto anunciado para essa data.
A atuação já não acontecerá. Na mensagem de pesar divulgada após a morte do músico, o Município de Santa Maria da Feira recordou precisamente o espetáculo que estava previsto e destacou a marca deixada pelo artista na música e na cultura portuguesas, numa obra capaz de atravessar gerações.
Esse concerto que ficou por realizar adquire agora uma dimensão inevitavelmente simbólica. Entre uma noite vivida em Vale de Cambra e outra que estava projetada para Santa Maria da Feira, Jorge Palma cruzou, nos últimos tempos, dois dos principais palcos culturais das Terras de Santa Maria.
A sua relação com a região passa assim a ser feita simultaneamente de memória e ausência: da recordação concreta de quem o ouviu em Vale de Cambra e da expectativa de quem esperava vê-lo, dentro de poucas semanas, na Feira.
Em 2026, Jorge Palma tinha recebido o Prémio Carreira dos PLAY – Prémios da Música Portuguesa, mais um reconhecimento de uma trajetória que começara ainda nos anos 1960 e que se prolongou por mais de meio século. Ao longo desse caminho recebeu também, entre outras distinções, o Prémio José Afonso, o Prémio Pedro Osório e o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.
Mas a dimensão de Jorge Palma mede-se talvez menos pelos prémios do que pela permanência das canções. São músicas que se confundem com viagens, amores, noites, inquietações e histórias pessoais de várias gerações de portugueses.
Também nas Terras de Santa Maria ficam essas canções — e fica uma página escrita à mão em Vale de Cambra, um palco que o recebeu em maio de 2025 e outro, em Santa Maria da Feira, que o esperava em outubro de 2026.
Jorge Palma partiu. A música, essa, continua por aqui.
