2026/11/02
A ECCO chegou a empregar 1700 pessoas em São João de Ver. Conheça os 42 anos de história da fábrica que agora vai encerrar.
A multinacional dinamarquesa chegou a ser a maior produtora de calçado em Portugal. Depois de períodos de expansão, deslocalização da produção e sucessivos despedimentos, a empresa prepara-se para abandonar definitivamente a fábrica onde iniciou a internacionalização industrial.
A história da ECCO em São João de Ver começou em 1984, quando a multinacional dinamarquesa escolheu Santa Maria da Feira para instalar a sua primeira fábrica fora da Dinamarca. Quarenta e dois anos depois, a empresa anuncia o encerramento definitivo de uma unidade que chegou a empregar cerca de 1700 pessoas e a ocupar um lugar de destaque na indústria portuguesa do calçado.
Durante a década de 1990, a fábrica atingiu uma produção anual de aproximadamente quatro milhões de pares de sapatos, tornando-se a maior produtora de calçado em Portugal. Era um período de expansão, marcado pela dimensão da unidade e pela sua importância para o emprego na região.
A atividade da ECCO, contudo, atravessou diferentes fases ao longo dos anos, acompanhando mudanças na estratégia internacional do grupo.
A partir de 2006, a empresa começou a reduzir a produção em Portugal. Nesse ano ainda fabricava cerca de 2,6 milhões de pares de sapatos, mas, em 2008, a produção tinha caído para aproximadamente 500 mil pares.
Entre 2006 e 2008, a fábrica perdeu perto de 500 postos de trabalho. Em junho de 2008, a multinacional anunciou a intenção de dispensar mais 180 trabalhadores, no âmbito de uma reorganização que privilegiava as atividades de desenvolvimento de produto e a produção de amostras.
A história da fábrica portuguesa conheceu uma reviravolta em 2011. As graves cheias que atingiram a Tailândia e afetaram a capacidade produtiva da multinacional levaram a ECCO a recuperar a produção em série em São João de Ver.
O regresso foi acompanhado por investimentos e novas contratações. Em 2015, a empresa tinha investido cerca de 20 milhões de euros e empregava 1169 trabalhadores, recuperando uma posição de destaque no panorama nacional do calçado.
A recuperação, porém, não impediu novas reduções de pessoal.
Em 2023, a ECCO avançou com um despedimento coletivo que abrangia 42 trabalhadores do departamento de amostras. O processo originou contestação sindical, nomeadamente pela inclusão de uma delegada sindical entre os funcionários abrangidos.
No ano seguinte, em março de 2024, a multinacional anunciou novo despedimento coletivo, desta vez de 54 trabalhadores, justificando a decisão com uma reorganização dos departamentos de Produção e Qualidade destinada a garantir a competitividade e a sustentabilidade da operação portuguesa.
Nessa altura, a fábrica ainda empregava cerca de 900 pessoas.
Dois anos depois, o encerramento anunciado em novembro de 2026 afeta os 632 trabalhadores que permanecem na unidade.
A ECCO enquadra a decisão numa reestruturação global que também prevê o encerramento de uma fábrica no Vietname e a possível redução de cerca de 400 postos de trabalho em funções regionais e globais.
O percurso da empresa em São João de Ver fica assim marcado por sucessivos ciclos de crescimento e retração, que acompanharam as transformações da produção industrial da multinacional.
Mais do que o encerramento de uma fábrica, a decisão representa o fim anunciado de uma unidade que durante mais de quatro décadas marcou a vida profissional de várias gerações de trabalhadores e contribuiu para a afirmação industrial de Santa Maria da Feira.