2026/04/04
Santa Maria da Feira destaca-se como um dos principais municípios exportadores, mas posição em ranking de competitividade levanta dúvidas e expõe desafios estruturais.
O concelho de Santa Maria da Feira continua a afirmar-se como um dos principais motores económicos do país, integrando o grupo restrito dos municípios com maior volume de exportações, mas a sua posição num recente ranking de competitividade está a gerar debate político e a levantar dúvidas sobre a forma como estes indicadores refletem a realidade do território.
A questão foi discutida em reunião do executivo municipal, onde foi sublinhado o contraste entre dois retratos distintos do concelho: por um lado, o desempenho económico sustentado, com forte capacidade exportadora e atração de investimento; por outro, a classificação menos favorável num estudo que coloca Santa Maria da Feira na 92.ª posição entre cerca de 186 municípios analisados.
O desempenho exportador foi destacado como um dos principais indicadores da vitalidade económica local, refletindo a solidez do tecido empresarial e a relevância de setores industriais com forte presença internacional. Este dinamismo tem permitido ao concelho consolidar-se como um dos polos produtivos mais importantes da região Norte, contribuindo para a criação de riqueza, emprego e crescimento económico sustentado. A capacidade de atrair investimento significativo, incluindo projetos empresariais e industriais de grande dimensão, reforça esta perceção de competitividade e posiciona o território como um destino atrativo para novas iniciativas económicas.
No entanto, a leitura proporcionada pelo ranking de competitividade introduz uma perspetiva mais complexa. A classificação obtida foi recebida com surpresa por alguns membros do executivo, que questionaram a adequação dos critérios utilizados e a forma como determinados indicadores influenciam o resultado final. Entre os fatores avaliados encontram-se dimensões como acessibilidade à habitação, qualidade das infraestruturas e condições socioeconómicas, que nem sempre acompanham o ritmo de crescimento económico registado no concelho.
A habitação surge, neste contexto, como um dos principais pontos críticos. O aumento da procura, impulsionado pelo crescimento económico e pela capacidade de atração de população e investimento, tem vindo a pressionar o mercado imobiliário, criando dificuldades no acesso a habitação a preços acessíveis. Este fator, reconhecido pelo próprio executivo, poderá estar a penalizar a posição do concelho em rankings que valorizam indicadores sociais e de qualidade de vida.
A discussão revelou também uma preocupação mais ampla com a forma como a competitividade territorial é medida. Foi defendido que os rankings devem ser encarados como ferramentas de trabalho, úteis para identificar fragilidades e orientar políticas públicas, mas que não devem ser interpretados de forma isolada ou absoluta. Indicadores como o volume de exportações, a capacidade de atrair investimento e o dinamismo empresarial foram apontados como elementos fundamentais para avaliar a verdadeira competitividade de um território, muitas vezes subvalorizados em análises mais abrangentes.
Ao mesmo tempo, foi reconhecido que os resultados menos favoráveis não devem ser ignorados, mas antes analisados como sinais de alerta. A necessidade de melhorar condições estruturais, como o acesso à habitação, a eficiência administrativa e a qualidade dos serviços, foi apontada como essencial para reforçar a posição do concelho em avaliações futuras e garantir um desenvolvimento mais equilibrado.
Este equilíbrio entre crescimento económico e desafios estruturais evidencia a complexidade do momento atual de Santa Maria da Feira. O concelho apresenta indicadores claros de dinamismo e capacidade de afirmação no contexto nacional e internacional, mas enfrenta simultaneamente constrangimentos que condicionam a perceção global da sua competitividade.
Num contexto em que a atração de investimento e a qualidade de vida dos cidadãos assumem crescente importância, o desafio passa por alinhar estes dois planos. A consolidação do tecido económico, associada a políticas públicas que respondam às necessidades sociais e urbanísticas, será determinante para reforçar a posição do concelho e garantir um desenvolvimento sustentável.
A discussão em torno do ranking e do desempenho exportador revela, assim, não apenas um contraste de indicadores, mas também uma oportunidade para repensar estratégias e definir prioridades, num território que procura afirmar-se simultaneamente como competitivo, atrativo e socialmente equilibrado.