2026/02/25
Com 768 processos num único ano, a realidade social exposta pelo relatório coloca a proteção da infância no centro da agenda política local, exigindo respostas estruturadas, preventivas e articuladas entre todas as entidades envolvidas.
O relatório anual da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) de Santa Maria da Feira revelou que, ao longo de 2025, foram registados 768 processos, um número que gerou preocupação entre os deputados municipais durante a última sessão da Assembleia Municipal de Santa Maria da Feira.
De acordo com os dados apresentados, encontram-se 325 processos ativos, sendo que, no total, foram acompanhadas 651 crianças e jovens ao longo do ano. A maioria dos casos incide nos escalões etários entre os 11 e os 14 anos e entre os 15 e os 17 anos, com predominância do sexo masculino.
Os números revelam uma concentração significativa de processos na adolescência, o que levou alguns deputados a questionar a eficácia das políticas de prevenção precoce e da articulação entre escolas, serviços sociais e programas municipais de juventude.
Durante o debate, foram referidas problemáticas associadas a violência doméstica, negligência, exposição a contextos familiares disfuncionais e saúde mental, incluindo situações de ideação suicida. A oposição alertou para a necessidade de reforçar ações de sensibilização e programas preventivos nas escolas, nomeadamente no combate à violência juvenil e ao cyberbullying.
Apesar da apresentação dos dados estatísticos, alguns eleitos manifestaram reservas quanto ao nível de detalhe do relatório, defendendo que o documento deveria incluir uma análise qualitativa mais aprofundada, capaz de orientar a definição de políticas públicas municipais.
Foi ainda apontada uma eventual discrepância na distribuição de processos pelos gestores, podendo existir técnicos com carga processual significativamente superior a outros, o que poderá comprometer a celeridade e eficácia do acompanhamento.
Outra preocupação levantada prende-se com as condições físicas das instalações da CPCJ, tendo sido referida a necessidade de criar salas adaptadas a crianças, garantindo um ambiente mais seguro e confortável durante as audições.
Em resposta, foi salientado que, no que respeita às competências municipais, o apoio à CPCJ está assegurado. Recorde-se que as Comissões de Proteção de Crianças e Jovens são entidades oficiais não judiciais, com autonomia funcional, cuja missão é promover os direitos das crianças e prevenir ou pôr termo a situações que comprometam a sua segurança, saúde, formação ou desenvolvimento.
O debate deixou claro que, embora o número elevado de processos seja motivo de alerta, também pode refletir maior capacidade de sinalização e acompanhamento das situações de risco.
Para vários deputados, os 768 processos registados em 2025 constituem um “sinal de alerta” que exige reforço da prevenção, nomeadamente através de programas de apoio à parentalidade, intervenção precoce nas escolas, reforço da literacia emocional e da saúde mental, campanhas contra violência doméstica e violência juvenil, maior articulação entre município, escolas e serviços de saúde.
O tema deverá continuar a merecer acompanhamento da Assembleia Municipal, podendo vir a motivar novas reuniões com a CPCJ para aprofundar a análise dos dados e avaliar medidas adicionais de proteção às crianças e jovens do concelho.
Com 768 processos num único ano, a realidade social exposta pelo relatório coloca a proteção da infância no centro da agenda política local, exigindo respostas estruturadas, preventivas e articuladas entre todas as entidades envolvidas.